Pesa a idéia de que isso me leve a uma zona de conforto e ao isolamento. Às vezes acho que não sei dar nem receber carinho. Por vezes penso que me tornei pedra; nada entra, nada sai. Sinto raiva, sim, das pessoas e das suas relações. Incomoda o afeto banalizado. Hoje nos conhecemos e nos beijamos, trocamos tolas confidências e amanhã não é mais. Outro dia, vez de outra pessoa a cercear uma carência que não se supre e quase coletiva. Vou eu indo sem entender essa intimidade que não é intimidade. Vou eu talvez com minhas rugas na alma. Vou, tentando encontrar uma harmonia de ser. Sem saber como ser sexy, tampouco como conquistar o homem que amo. Vou tentando aprender tantas coisas. Sem saber. Tendo, somente.
É com imenso alívio que chego à Aleluia. Por tanto tempo escondida em um fardo meu, mas que não era eu. A idéia de limpeza não me soaria sincera, mas é como se eu estivesse esfregando com palha de aço e sabão o metal já gasto pela vida e machucasse minhas mãos para chegar ao brilho puro, brilho inocente, brilho que o amor traz à a alma. Como uma tal Aleluia.
Falas de cores que não conheço, te dou um amor que não podes sentir. Vestes de adornos tuas palavras e mostras a vida com suavidade gentil. Eu, aqui eu, retiro os excessos e me ponho em uma delicadeza rugosa, escondida em humildade vestida em vestidos coloridos e que não pesam.
É preciso que saibas, meu bem, que não me basto, mas me completo. E por mais agradável que me seja a troca com teu olhar, é o meu olhar nutrido de esperanças que me faz continuar. Satélites não alcançam minha alma e velocidade rápida da internet não me faz menos impaciente. Os postes iluminados sugerem vida. No entanto, é o sol de domingo que me faz acordar bem disposta. Desde de que aprendi a perceber - e isso me foi muito cedo - iniciei, também, o árduo trabalho de lidar com sentimentos altamente adversos e com a possibilidade de desertos e desencontros da vida adulta.
Estou tentando, juro, fazer um acordo muito bom comigo: não me exigir demais e viver mais a vida. Essa clareza de contrato devo à minha psiquiatra. Alguém ou algo(porque preciso pôr um sujeito) roubou meu cerne e tentou roubar meu norte, me deixou assim com um corpo dolorido e quase apático. Sujeito impiedoso e desalmado, precisa roubar o brilho alheio para achar que um dia vai ser luz. Bom fosse. Mas ele só vai ser luz quando for sujeito dele mesmo.
Ando por essa cidade antiga e vejo tantas belas e grandes portas. Vou um dia sair por aí, com imensa Aleluia, fotografando essas portas para fazer um mosaico de portas em forma de lembrança. E, sim, Pelotas e meus ombros cansados de hoje se tornarão apenas mais um quadro em uma parede qualquer. Talvez rude; eu diria diferente, entretanto. Diria que minha mais pura delicadeza não serve para comover tua forma de ver a vida. Não, isso não é duelo. É mentira. Semelhante a um Amém.